

Não sei exatamente em que ponto da minha vida esqueci as imagens de infância nessa velha nova Campo Grande. Foi tudo muito rápido. Aos 14, os 70 começando, a partida e deixo para trás um ciclo da vida e avanço através de um país perdido em vazantes de gente e sonhos.Estou indo embora e, por trás da ingênua tolerância eu entardeço, sobretudo, pouco atento ao vento, soprando os monumentos da minha cidade. Obelisco, Fonte luminosa, o Relógio da 14. Ah! O relógio da 14. Onde foi parar o Relógio da 14? Está perdido em algum labirinto do tempo, como os seriados de televisão da minha infância? E que nem uma lágrima machuque a capa muito fina da lembrança que me corrói em lembrar de ti.Vou e deixo-o a se desfazer, furtivamente, de minha memória de menino. O ícone da minha cidade, onde os homens discutiam os rumos das nossas vidas enquanto poetas do acaso construíam seus sonhos. Eu criança, olhando para seus ponteiros, ditando tempos e rotas de minha gente, tentava ganhar noções de translação e medir, pra meu governo, a cor do sol.Velho relógio, subterfúgio de todo tipo de alma que habitava essa cidade, pequena cidade de homens crus e empertigados em busca de dimensionar dias e noites em gestos largos de procuras. Por muitos anos Campo Grande ficou ausente de minha memória e de minha rota de vida, mas voltei. Nesse retorno, muita coisa da infância se foi com o tempo e não me feriu a alma tanto quanto a falta do Relógio da 14.Foi como se a partida nos idos de 70 deixasse-o a marcar os anos, meses, dias de meu regresso. Voltei e não encontrei mais seus ponteiros absolutos, senhor de estrelas e direções. Na soleira de sua torre a vida da antiga cidade passava num turbilhão de acontecimentos. Era essa mesma torre majestosa que nos olhava como se, em final da existência, avaliasse a única eternidade que nos é certa: continuarmos-nos em nossos filhos. Pois é velho relógio, senhor do tempo, sucumbido à fúria dos homens sem memória, possivelmente jazendo em algum canto secreto da nova cidade que cresce e foge de seus ícones absolutos que ainda resistem: A fonte luminosa, o obelisco descaracterizado de sua originalidade, e os velhos prédios que se escondem na confusão absurda das imagens da modernidade. Entristece os velhos corações saudosos da velha cidade a sua ausência, o seu porte, modulando a noite, refletindo os sóis dos dias. Vou envelhecendo meu saudoso relógio. Não sei até quando vou conseguir levar sua imagem, que é a imagem da minha vida, da minha história, dos acasos, das impossibilidades, e de não poder fugir, não poder fugir nunca a este destino de dinamitar rochas dentro do peito... LIZOEL COSTA
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